Poesia de exportação
(Nelson Ascher)
Raros são os poetas que não gostariam de ser traduzidos para outras línguas. Tampouco faltam os que, superestimando a importância de sua eventual recepção estrangeira ou sequiosos de usá-la como um desvio que lhes permitiria "furar a fila" na própria terra, investem habilidades diplomáticas e/ ou publicitárias na conquista de novos mercados, alguns reais, outros (o grosso deles), somente ilusórios. Embora aquela ambição seja lícita e este empenho, freqüentemente cômico, ainda assim cabe perguntar: vale a pena?
Um mínimo de familiaridade com a história literária inspiraria não poucas dúvidas. Se até um poeta como Murilo Mendes, que estabeleceu vínculos sérios com muitos de seus melhores contemporâneos espanhóis, italianos e franceses, só começou a ser seriamente lido em seu país décadas após morrer, nem é, hoje em dia, tão conhecido no exterior quanto fora em vida, o que podem esperar talentos nacionais bem menores que tenham se associado lá fora a gente que mal chega aos pés de Jorge Guillén ou Ungaretti, admiradores sinceros do mineiro?
O acaso e o suor podem lhe conseguir uma participação, aqui e ali, num festival poético internacional, a publicação de uma seletazinha em periódicos subsidiados com verbas estatais, uma menção desinformada num rol de nomes desconexos, mas tudo isso (acrescido, talvez, de passagens em classe turística e quarto num hotel de três ou menos estrelas) quase nunca trará ao exportador aquilo que justificaria seu cansaço, ou seja, leitores de verdade.
Pois ocorre que a literatura em geral e a poesia em particular são difíceis de exportar. O primeiro obstáculo evidente que se impõe entre o poeta e um possível público além das fronteiras nacionais é o lingüístico. Não que a poesia seja intraduzível, mas, para convencer gente que não fala a língua em que foi escrita, ela requer bons tradutores. E esses, além de sempre escassos, têm geralmente nas mãos afazeres distintos.
Um especialista excelente como Richard Zenith, depois de traduzir para o inglês uma bela seleção de João Cabral, fez o quê? Voltou a Fernando Pessoa. E, não muito antes, havia publicado uma antologia dos trovadores galaico-portugueses medievais. Por mais que a dedicação e energia do espanhol Angel Crespo fossem exemplares, ele também as investiu em tarefas diversas, algumas dessas destinadas a pôr em dia o repertório de poetas luso-brasileiros em seu idioma, como foi o caso de sua tradução de Gonçalves Dias. E parte generosa de seu vigor se dirigiu a empreitadas diferentes, como a tradução de prosa ("Grande Sertão: Veredas") ou poetas italianos (Dante e Petrarca).
O holandês August Willemsen é considerado um herói cultural em sua terra natal por ter importado para sua língua autores como Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Drummond e Ferreira Gullar. No entanto, ele é apenas um e, num país pequeno como o seu, quem sabe quando surgirá outro como ele. Até em nações populosas e afluentes, tais quais a França, a Alemanha, os EUA, o número de pessoas capazes de estabelecer um intercâmbio competente e informado de suas respectivas tradições literárias com as demais é, em cada geração, bastante reduzido. Por exemplo, deve-se ao esforço heróico de um tradutor solitário, Karl Dedecius, a divulgação efetiva em alemão dos modernismos poéticos polonês e russo.
Ademais, se a obra de um poeta autêntico demora para ser assimilada em seu âmbito idiomático, parece pouquíssimo provável que um reconhecimento para além do efêmero principie em outros lugares ou línguas. Um caso recente, o de Paul Celan, ilustra bem esse truísmo.
Nascido em 1920, na Bucovina, região que pertencera à monarquia austro-húngara e integrava então a Romênia, ele era o produto de um meio plurilíngüe e pôde, portanto, escolher qual seria sua língua de expressão. Como, antes dele, o búlgaro Elias Canetti, Paul Celan optou pelo alemão. Seu reconhecimento foi rápido. Publicando os primeiros poemas importantes na década de 40, ele já era famoso na seguinte e, nos anos 60, começou a ser traduzido para o inglês, francês, italiano, espanhol etc. Em meados dos anos 80, estava sendo lido no mundo inteiro. No entanto, tal renome lhe chegou postumamente, pois ele se suicidara em 1970.
Celan, porém, jamais perseguiu a celebridade e foi recompensado, se bem que tarde demais para ele, pela qualidade de sua poesia. Esta, se a ambição não é tão pequena que se restringe à busca de prestígio, é a única atividade na qual vale a pena um poeta investir.
Folha de S.Paulo, 28 ago. 2006. envio rui mendes